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A dificuldade do Governo Lula em entender os novos meios de comunicação

Em um mundo marcado pela expansão continuada das novas ferramentas comunicacionais baseadas em internet, chama atenção a persistência do governo em se comunicar de forma analógica.

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA16 de set. de 235 min de leitura
Uma apoiadora mostra uma tatuagem do presidente Lula durante um protesto contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro em frente ao Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, em 11 de setembro de 2023. Foto: Miguel Schincariol/AFP
Creomar de Souza, para Headline Ideias16 de set. de 235 min de leitura

É comum e em determinada medida corriqueiro ouvir membros do governo felizes com a performance do presidente da República em termos de índices de popularidade em pesquisas de opinião. Do início do ano até o presente momento, Lula (PT) tem conseguido manter uma margem de apoio expressiva que, sem sombra de dúvidas, tem respaldado movimentos de retardar a entrega da chave do cofre para o Centrão na Câmara dos Deputados.

Dentro desse contexto, é sempre importante lembrar que grande parte do crescimento das prerrogativas de deputados e senadores sobre o poder Executivo na última década se deveu ao fato de que, sobretudo após o segundo mandato de Dilma Rousseff (PT), popularidade e presidência da República deixaram de ocupar o mesmo período gramatical.

Desta feita, com o novo governo, cabe o segundo questionamento: a popularidade de Lula se deve ao seu próprio legado ou à estrutura de comunicação construída pela sua administração até aqui? Em termos práticos, a resposta parece um tanto quanto óbvia: a memória positiva que Lula possui em determinadas parcelas do eleitorado, os 29% dos cidadãos considerados petistas segundo pesquisa recente do DataFolha se somam aqueles que estão fora dos 25% que se declaram bolsonaristas, permitindo que o presidente conte, pelo menos até aqui, com o suporte de avaliações positivas – as quais dão uma relativa estabilidade ao seu terceiro mandato e lhe fortalecem no que concerne à sua relação com o Legislativo.

O ponto, entretanto, é que para além deste componente de memória – o qual possui elementos positivos óbvios em um ambiente político tão polarizado quanto o Brasil de 2023 – não se encontram novidades ou mesmo modernizações na forma com que o governo se expressa. De maneira clara, o governo parece se comunicar usando instrumentos muito presentes no século passado, como a televisão e o rádio, mas peca – por omissão – na aproximação com os meios digitais de comunicação.

Isto não significa dizer que não haja uma militância em ambiente virtual tentando construir clusters de defesa ao presidente e ao governo. Ao contrário, os ataques sofridos por Gregório Duvivier e outros que apesar do apoio manifesto a Lula durante a eleição se tornaram críticos pontuais do governo, dão a dimensão de que há efetivamente atores e cidadãos engajados no embate virtual em defesa da administração petista. O problema, contudo, parece outro, e reside na incapacidade do novo governo de modernizar seu discurso e suas ações narrativas para uma audiência que consome digitalmente um número alto de informações em velocidade exponencial.

Este desafio não é novo. Durante a campanha eleitoral de 2022, por exemplo, não fosse a audácia de André Janones (AVANTE-MG), muito provavelmente a campanha de Lula teria sido destroçada pelo dinamismo e eficácia das bolhas de comunicação bolsonaristas. Estes e seus herdeiros, não por acaso, ainda lideram este tipo de espaço comunicacional, dando um sinal de potencial mudança no comportamento eleitoral que pode ser visualizada em momento próximo: as eleições municipais de 2024. Afinal, embora Lula tenha manejado vencer sua terceira corrida para o Palácio do Planalto, quando observamos criticamente as redes dos parlamentares mais influentes da atual legislatura em ambiente virtual, salvo raríssimas exceções, poucos aliados de Lula figuram entre aqueles que se destacam e que possuem números massivos de seguidores.

A questão que surge, portanto, é saber se a dificuldade de grupamentos à esquerda de compreender a nuvem de palavras e tendências das redes sociais reside na não familiaridade com as novas tecnologias ou se reside na crença de que a memória nostálgica que toma conta do governo também lança crença na ideia de que ao fim e ao cabo, os cidadãos abrirão mãos de seus celulares para assistir aos jornais da noite.

Na tentativa de compreender isto e na proposição de um esforço reflexivo que realce os riscos para um governo, em um país extremamente dividido, de explorar com qualidade as novas tecnologias e linguagens comunicacionais, é importante compreender que talvez o problema não seja apenas de forma, mas também de conteúdo. O que significaria dizer que para além do protagonismo do presidente – o fenômeno político e eleitoral com maior duração desde 1989 –, o governo carece de atores e agendas capazes de protagonizar uma nova forma de ver a realidade política.

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, acena ao pousar no Aeroporto Internacional José Marti, em Havana. Foto: Yamil Lage/AFP
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, acena ao pousar no Aeroporto Internacional José Marti, em Havana. Foto: Yamil Lage/AFP

O fato concreto parece ser o de que a popularidade do presidente se deve muito mais à força da sua persona do que a um elemento concreto de comunicação institucional efetiva. Dessa maneira, o governo conta até aqui com a sorte de que a oposição está em algum sentido acuada em função dos problemas autoconstruídos com a justiça e da ausência de uma liderança que centralize os ataques ao governo.

O ponto, portanto, é que contar apenas com a sorte em termos comunicacionais em um mundo marcado por uma tendência de consumo acelerado e exacerbado de informações é muito pouco para um governo que foi eleito sob o compromisso de não só melhorar a vida dos cidadãos, como também de consolidar e proteger o prédio institucional democrático.

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