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Análise - A política para além das redes sociais

Dos vídeos curtos para engajamento rápido aos diálogos que parecem saídos de uma literatura surrealista, a política calcada exclusivamente na internet tem dado sinais de suas limitações e fragilidades.

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA17 de ago. de 234 min de leitura
Depoimento do hacker, Walter Delgatti Neto, na CPMI do 8 de janeiro. Foto: Lula Marques/ Agência Brasil
Creomar de Souza, para Headline Ideias17 de ago. de 234 min de leitura

O depoimento de Walter Delgatti na CPMI do 08 de janeiro se materializou como mais um daqueles momentos catárticos que marcaram a política brasileira na última década. Ao menos desde 2013, os cidadãos comuns foram se acostumando e em algum sentido naturalizando a ideia de que a política é um jogo de regras pouco claras. Para aqueles que de uma maneira ou de outra participam do jogo político, tais percepções trazem como consequência direta a compreensão de decisores de que mais importante do que ter a convicção daquilo que se fala é conseguir ter o maior volume de cliques naquilo que se fala.

Tal dinâmica, muito próxima daquilo que nos acostumamos e naturalizamos com o uso massivo das redes sociais, alimentou dois fenômenos interessantes e interconectados; sendo o primeiro deles uma onda gigantesca de estímulos sensoriais sobre o que seria um novo tipo de política e de atores políticos; e o segundo, decorrente do primeiro, uma crescente descrença nas regras do jogo como estavam postas, assim como a consolidação de uma ideia de que mesmo que não se saiba o que colocar no lugar do prédio institucional atual, ainda assim valeria a pena implodi-lo diante das circunstâncias tão insultantes que marcam a política tradicional.

Este processo, chamado por seus apoiadores de nova política, ao fim do dia foi se consolidando apenas como uma política de negação da realidade e do diálogo institucional. Ou melhor dizendo, consolidou-se como uma antipolítica, em que pilares tradicionais da regra do jogo democrático – tais como a tomada de decisões baseada em evidências e a percepção de que o diálogo com o diferente era parte integral do jogo – não possuíam mais espaço. Afinal, o outro, antes de ser um rival eleitoral, havia se tornado um inimigo mortal e, como tal, não mereceria o direito à representação e, se possível, nem mesmo à existência.

A combatividade consequente deste processo, convenientemente muito bem explorada por grupos políticos que ganharam protagonismo no período de 2016-2022, parece ter encontrado um dilema na atual conjuntura. Afinal, mesmo que se considere o nível bastante robusto de crescimento de uma bancada antipolítica dentro do Congresso Nacional, é óbvio que esta, isoladamente, possui poucos atributos capazes de alterar a regra do jogo político para além de aparições escandalosas na tribuna ou falas montadas para serem reproduzidas em mensagerias nas Comissões de Trabalho, por exemplo.

Concretamente, se torna claro a cada dia a incapacidade desta bancada do clique de compreender os desafios da política democrática para além das performances e frases de efeito. E aqui vale a menção clara ao fato de que tais elementos são fundamentais em processos eleitorais, e que tais grupos seguem sendo mais eficazes que políticos tradicionais nesta seara. A tese aqui sustentada, no entanto, é que para além destes atributos comunicacionais extremamente importantes para o engajamento eleitoral, falta por parte desses indivíduos e grupamentos a perspicácia de compreender que algumas vezes – ou na maioria das vezes – aquilo que se diz na tela do celular não possui respaldo na realidade.

E a realidade, tal qual um muro intransponível, se impõe. Tendo como caso concreto os movimentos da oposição ao governo em tornar realidade a CPMI do 08 de janeiro, essas debilidades se tornam não só mais aparentes quanto sobremaneira explícitas. Afinal, mesmo com o número enorme de evidências robustas que convidariam a construção de uma estratégia cautelosa de contenção de danos, uma parte considerável destes atores embarcou nessa viagem – com possibilidade de não retorno –, cujos efeitos hoje podem resultar em um dilema para a própria forma como se faz política e posicionamento neste país.

Afinal, mesmo que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e um ou dois dos seus apoiadores mais próximos acabaram sendo tratados com objetos descartáveis neste processo de reação do establishment, o fato é que para aqueles que se consideram herdeiros políticos desta “nova” direita que surgiu dos estertores de 2013 e que ganhou corpo e voz nos ciclos eleitorais posteriores, cresce no horizonte a necessidade de decidir se haverá uma insistência no binômio dinamismo digital e amadorismo parlamentar, ou se de fato se buscará construir um compromisso com as regras do jogo democrático.

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8 DE SETEMBRO
CPMI
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