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Aos 100 dias do governo Lula, um olhar para o dia seguinte

O centésimo dia do terceiro mandato de Lula alimenta um mix de percepções sobre o desejo de normalidade e a sensação de que as expectativas até aqui não se tornaram ações efetivas

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA10 de abr. de 234 min de leitura
Reunião com ministros em 14 de março. Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República
Creomar de Souza, para Headline Ideias10 de abr. de 234 min de leitura

Os cem dias de governo são um parâmetro jornalístico para medir eficácia de administrações políticas recém-empossadas. Extremamente útil como uma ferramenta didática, permite que o cidadão comum tenha um marcador minimamente concreto daquilo que seria importante para um novo governo. Para além desta breve explicação, não há interesse neste texto de buscar as origens ou marco fundador da métrica.

Ao contrário, há a busca pela compreensão de quais são os elementos que compõem o processo de tomada de decisão do governo Lula e seu impacto sobre a população. Esta em específico, marcada pela enorme expectativa criada em torno da capacidade de entrega de um governo que se elegeu sob um misto de redenção pessoal do Presidente e reconstrução das instituições. Diante deste desafio, a lógica de construção do que venha a ser este terceiro mandato precisa ser escrutinada em duas camadas, sendo a primeira aquilo que o governo buscou dizer que seria em termos simbólicos e narrativos; e a segunda, aquilo que efetivamente se tem com três meses completos de administração.

Os simbolismos

Em termos simbólicos, o Partido dos Trabalhadores em seu retorno ao Palácio do Planalto traz dois elementos importantes: diversidade e nostalgia. No que concerne a diversidade, esta está empacotada na construção de um eixo de ministérios sociais (Igualdade Racial, Direitos Humanos, Povos Indígenas e Mulheres) Essas pastas são entregues em ato simbólico para atores políticos que possam vender a ideia de que este é um governo efetivamente distinto em todas as camadas. De Silvio Almeida a Anielle Franco, Lula e o PT buscam explorar a ideia de que a minorias estão de volta ao dia a dia da coisa pública.

Em paralelo a este movimento, se soma outro, tão importante quanto o primeiro, que é o reforço da lógica de que a reconstrução passa por um mergulho no passado. A retomada de políticas públicas erodidas, cujos resultados variam de pouco a muito positivos, respectivamente o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Família, são marcadores de que a solução está no retrovisor, se materializa no dia a dia do governo. O ponto, entretanto, é que se tais movimentos encontram ressonância nos componentes de base da campanha eleitoral, há algo que pareceu não encaixar até aqui nesta nova administração: a centralização da tomada de decisão.

Por outro lado, se a diversidade é um mote e um elemento simbólico a ser explorado, ela não se apresenta no círculo decisório mais íntimo do Presidente. Ao contrário, parece haver no entorno de Lula um povoamento monocromático, em que a ideia de Frente Ampla que o PT acolheu durante a campanha não fizesse morada na hora de tomar decisões importantes. Este cercamento que deu ao PT 29,7% dos ministérios – ao passo que sua capacidade congressual não passa dos 13,25% das cadeiras da Câmara, nem dos 9.87% no Senado Federal – alimenta em algum sentido um apego ao passado que limita a compreensão da realidade conforme posta na atual conjuntura.

Paralisia decisória em um governo nostálgico

Tal negação do mundo como ele é requenta, por consequência, alguns complexos de grandeza expressos na tentativa de intermediar a paz alhures. Além disso, alimenta uma lógica decisória que não deu conta das necessidades de romper resistências junto à setores importantes da economia nacional. Não se trata aqui de negar o esforço de atores como o Ministro da Fazenda, talvez o mais esforçado em dialogar com a sociedade fora da caixa de ressonância da militância. Trata-se de alertar acerca dos custos de insistência em fórmulas que já se mostravam limitadas vinte anos no passado.

Superando-se, portanto, a marca dos cem dias e olhando para um número significativamente superior de datas ainda disponíveis, compreende-se a necessidade de ir além daquilo que foi constituído até o momento. Por mais que possam ser valorizadas as imagens e discursos emocionais, o fato é que este é um governo em paralisia decisória, com enorme apego ao passado e uma dificuldade de compreender os dinamismos de uma configuração institucional altamente fluída e de uma sociedade onde os consensos parecem desmoronar a cada nova notícia negativa que salta aos olhos dos cidadãos.

A nostalgia aplaca os corações e mentes da militância, mas para avançar rumo a um governo que efetivamente faça entregas relevantes, faz-se necessário inovar. E inovação requer a adoção de um modelo decisório realmente diverso e heterogêneo, em que não apenas os amigos do Rei sejam ouvidos. Lula tem a enorme chance de, em um só movimento, alterar o curso de sua própria biografia, mas, para isso, precisa assumir de maneira efetiva as rédeas do governo, eliminar os ruídos e, possivelmente, rever seus pressupostos de tomada de decisão. Sem isto, o prospecto mais concreto para o governo e o país no amanhecer do centésimo primeiro dia é o de imobilismo político e ineficácia decisória. 

*Creomar de Souza é historiador e mestre em relações internacionais. É fundador e CEO da Dharma Politics

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