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Fora da política democrática não há salvação

Diálogo e escrutínio popular são atributos inerentes de regimes democráticos. E em uma região marcada por apego ao autoritarismo, sempre vale relembrar a importância da política feita em termos democráticos.

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA4 de ago. de 234 min de leitura
Arte: Carol Macedo
Creomar de Souza, para Headline Ideias4 de ago. de 234 min de leitura

A América Latina – invenção da diplomacia de Napoleão III – vive um momento de retração democrática. De um ponto de vista endógeno, as raízes deste fenômeno são inúmeras, porém, por uma questão de síntese, nesta reflexão podemos tratar de duas que, efetivamente, fazem enorme diferença na vida dos cidadãos comuns. Sem dúvidas, a primeira dessas raízes é a enorme desigualdade que afeta a maioria absoluta dos países da região, e de maneira quase que uníssona. A segunda, por sua vez, diretamente vinculada e entrelaçada à primeira, é fruto da assimilação e internalização gradativas de que as instituições democráticas são muito boas para um número reduzido de pessoas e draconianas para a imensa maioria.

Diante da peculiaridade que marca a conjuntura de enfraquecimento da ordem democrática mundial, um dos elementos mais concretos deste processo é a busca de numerosas porções das populações por soluções milagrosas – e por conseguinte instantâneas – para problemas cotidianos. Da política econômica aos desafios de segurança pública e saneamento básico, tem sido alimentada a ideia de que todos os problemas se resumem à ausência de vontade política ou da falta de uma liderança que possua os atributos de força e iluminação capazes de guiar cada uma das sociedades para as quais lançamos nossos olhares em um caminho de crescimento irreversível.

O ponto, contudo, é que não há crescimento irreversível. E muito menos existe a capacidade de resolução de problemas complexos a partir de axiomas vazios, tais como “ausência de vontade política”. De fato, para o desalento de muitos daqueles que caem na super simplificação da realidade por meio de fórmulas mágicas, a verdade quase que incontornável e inquestionável é a de que as soluções para problemas coletivos surgem não em um passe de mágica, mas por meio de um trabalho duro. E essas soluções, quando bem ajustadas, apresentam resultados que só podem ser visualizados efetivamente a partir de um intervalo de tempo consideravelmente longo.

Tais elementos, que podem ser abarcados em termos de literatura de políticas públicas dentro daquilo que se chamaria de uma lógica incremental, por óbvio não despertam as paixões e os humores do grosso do eleitorado – seja no Brasil, seja na Argentina, seja em qualquer outro país. Afinal, por mais que na utopia idílica de um democrata liberal seja prometido que a sociedade chegará em um estágio onde cada cidadão será plenamente consciente daquilo que está em jogo quando depositar confiança em um determinado político, o fato é que o cenário mais factível para o futuro é aquele que se vislumbra no presente.

O presente, por sua vez, é marcado pelo fato de que em alguns momentos o próprio povo parte ao enfrentamento contra a democracia, o que obrigatoriamente demanda das autoridades com poder público escolhas bastante claras. De um lado, a escolha pelo aprimoramento das regras do jogo para preservar a essência do regime democrático – ou seja, a possibilidade de indivíduos coexistirem pacificamente apesar de suas diferenças. De outro, a aproximação e apropriação do diálogo simplista de que se faz necessária uma solução de força que permita a separação entre o joio e o trigo para que se construa um novo caminho.

Aqui, parece importante ter em mente que se enganam aqueles que consideram que as lógicas segregacionistas estão posicionadas apenas em um espectro político. A internet, a hiperconectividade e as redes de interação social baseadas na rede mundial de computadores têm sido profícuas em mostrar as armadilhas interpretativas e segregacionistas disfarçadas de formas distintas. Algumas, por óbvio, muito mais bem disfarçadas do que outras e, por consequência, muito mais difíceis de desarme.

E se há limites tanto de identificação quanto do desarme de iniciativas extremistas no cotidiano, se torna necessário, por ato contínuo, que aqueles que acreditam na qualidade do diálogo democrático percam o pudor de assumir posicionamentos firmes em defesa do aprimoramento das regras do jogo. Mas que, sobremaneira, no caso particular do Brasil, assumam também um posicionamento pedagogicamente responsável no sentido de educar os cidadãos com menor acesso à informação ou mesmo conhecimento sobre as dinâmicas que ditam as políticas públicas, para que estes compreendam os avanços que este país apresentou – tais como a estabilidade econômica desde 1994.

*Creomar de Souza é historiador e mestre em relações internacionais. É fundador e CEO da Dharma Politics 

 

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