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#Tomada de decisão

Medos, traumas e expectativas: os primeiros sinais do modelo decisório de Lula

Diante da persistência dos derrotados em estimular tumulto e confusão, o modelo decisório do presidente eleito se baseia na busca do conhecido e do confiável – não do mais eficiente – para lidar com os desafios vindouros

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#Tomada de decisão16 de dez. de 227 min de leitura
O presidente eleito do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, e sua esposa, Rosangela "Janja" da Silva, participam da sessão de encerramento do grupo temático do governo de transição em Brasília, em 13 de dezembro. Foto: Evaristo Sá/AFP
Creomar de Souza, para Headline Ideias16 de dez. de 227 min de leitura

O dia seguinte das eleições brasileiras assume características de guerra psicológica. Manifestações em unidades militares, bloqueios de estradas, palavras de ordem e a busca por sinalizações que oscilam entre a dubiedade discursiva e o messianismo.

Possivelmente estimulados e coordenados pelo grupo político que em breve desocupará o Palácio do Planalto, esses movimentos têm feito bastante barulho. Efetivamente, ao mesmo tempo que são objeto de escrutínio de alguns setores da imprensa e da leniência de autoridades policiais e militares, se caracterizam por outro aspecto pouco explorado até aqui: a capacidade de gerar dissonância decisória dentro do grupo político que foi eleito.

Traumas de Lula podem interferir nas suas decisões

O cenário eleitoral polarizado se transmuta em um cenário político polarizado e a resultante de tal movimento é o aumento da pressão sobre a tomada de decisão do futuro governo Lula.

Se de um ponto de vista romancista os apoiadores de Lula consideram que sua trajetória é roteiro de uma obra cinematográfica, de fato não se pode negar que a sucessão de traumas pelas quais o futuro presidente da República passou pode interferir na sua capacidade decisória.

Não se trata aqui de criar qualquer tipo de narrativa conspiratória que venda a ideia falaciosa de que Lula não está apto para cumprir suas atividades. Do contrário, tais experiências pregressas podem atestar um alto nível de resiliência e capacidade de lidar com sofrimento e privações.

Com efeito, um ponto que merece escrutínio é a compreensão de como os movimentos políticos que são alheios às vontades do presidente eleito e à interferência de seu grupo político afetam a capacidade de compreender a realidade a partir de parâmetros que tornem o leque decisório mais diverso e ágil. Como exemplo, tome-se o impacto das manifestações ocorridas em Brasília na noite do dia 12 de dezembro. Por certo, o elemento mais importante destas não diz respeito ao volume de pessoas que esteve envolvido – pelos registros oficiais, pouco mais de uma centena. A questão verdadeiramente impactante é a postura pouco assertiva das autoridades policiais envolvidas.

Estas autoridades, em um misto de inabilidade e ineficácia, assumiram um posicionamento que serve como recado importante para as autoridades de segurança pública do futuro governo. O risco político derivado das polícias militares não está vinculado à marcha em favor de uma interrupção democrática. O risco está no descumprimento de suas funções constitucionais de manutenção de lei e ordem. A dificuldade do governador do Distrito Federal e do Secretário de Segurança Pública da capital de fazerem cumprir o desejo de que algum responsável fosse preso dá o tom do quão difícil será para Lula e Flávio Dino lidarem com esse tipo de situação.

De um ponto de vista cognitivo, algo que deve ser considerado quando analisamos o ambiente político brasileiro atual é que as escolhas dos decisores, efetivamente, têm sido cada vez mais constrangidas por um componente emocional. Como citaria Herbert Simon – um dos pais da análise cognitiva –, a racionalidade é limitada pelas emoções. Aplicando este ensinamento à política brasileira, se o Lula de 2003 chegava à presidência como uma memória distante de violências e repressões contra si durante a ditadura militar, o Lula de 2023 chega ao poder com a memória fresca de 580 dias de encarceramento e a sensação bastante forte de que uma parte considerável da população brasileira o rejeita – ou, minimamente, o percebe de maneira bastante negativa.

E aqui há um elemento importante de reflexão que permite um exercício de visualização daquilo que alegoricamente Lula viu, ouviu e sentiu durante a última noite de segunda: o ir e vir de policiais, o cheiro de fumaça, o tumulto causado por uma ação que pode ser enxergada como um ato de guerra psicológica com toques de terrorismo doméstico. O ponto é a leniência de autoridades policiais, que é foco de queixas de figuras importantes, tende a alimentar a sensação de que este é um governo de tudo contra todos.

Dificuldade de ampliar diálogos e alianças

A resultante desta percepção, ao menos do que se vê em termos de nomeações ministeriais até aqui, é a de que, racional e emocionalmente, Lula tem orientado suas escolhas com base naquilo que lhe traz conforto. O núcleo duro do governo, por razões óbvias, aos poucos está sendo composto por pessoas que não o abandonaram durante o período que passou em cárcere. Com essas pessoas, foram cristalizados fortes laços, lealdades e afeições. E se isto resolve o problema de fluidez das decisões, alimenta outro, que foi muito bem percebido por parte considerável da sociedade durante o governo que se finda: a dificuldade de ampliar diálogos e alianças.

Compreenda, não se trata aqui de afirmar que Lula deveria convidar Paulo Guedes para o ministério da Fazenda, como parece ser a vontade de alguns que, ao compreenderem pouco a política e a realidade, pretendem impingir. O fato, na realidade, é que Lula, como qualquer presidente antes de si, tem o direito de encaminhar um projeto com suas feições. O dilema prático para isto, no entanto, é que ao olharmos os números de parlamentares que comporão a base governista no Congresso, o movimento de setores econômicos importantes e a persistência de tumulto com fins de criação de instabilidade sobre o futuro governo, é possível afirmar com tranquilidade que apenas os amigos não são suficientes para atender as expectativas que se criam.

E esta parece ser a maior dificuldade de compreensão até aqui. Seja ela derivada de uma percepção hegemônica do Partido dos Trabalhadores, seja alimentada por uma sensação de gratidão de Lula ou fruto de uma reação instintiva à pressão sobre suas próprias cabeças, concretamente, o fato inescapável é que uma parte do eleitorado responsável pela vitória de Lula espera mais do que o mesmo de sempre. E diante da expectativa possivelmente frustrada de que o futuro governo seja realmente de fato uma coalizão de centro democrática, há uma tendência clara de que a defesa do governo assuma nos próximos meses uma rationale de colocação dos críticos de ocasião na mesma cesta de inimigos da democracia.

Lula discursa durante a sessão de encerramento do grupo temático do governo de transição, em Brasília, em 13 de dezembro. Foto: Evaristo Sá/AFP
Lula discursa durante a sessão de encerramento do grupo temático do governo de transição, em Brasília, em 13 de dezembro. Foto: Evaristo Sá/AFP

Este, inclusive, é o modus operandi em que o Partido dos Trabalhadores sempre operou. A ideia de polarizar, categorizar e em alguns momentos enquadrar rivais em uma lógica maniqueísta tornou o partido a única legenda de fato ideologicamente robusta da Nova República. O problema daí derivado é que o puritanismo consequente deste modelo tornou o modo PT de fazer política intragável para outros atores políticos importantes. Alguns destes, pelo fato de enxergarem em Lula uma saída democrática possível ante o risco autoritário, juntaram fileiras de forma excepcional com o PT nesta campanha.

E se este movimento alimentou o otimismo de alguns e gerou a visualização de uma profecia irrealizável de pacto nacional, seria interessante que o Partido dos Trabalhadores e o presidente eleito compreendessem que as concessões devem estar além da mera composição parlamentar. Caso isto não seja feito, possivelmente, o prospecto é de que o Governo Lula III, muito longe de se dar como uma continuação do Governo Dilma II, será apenas uma administração cercada de fantasmas reais e imaginários, incapaz de realizar o desejo inconfesso mas perfeitamente nítido de Lula: o de redimir sua própria biografia.

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