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No enfrentamento à tragédia, o caminho para a civilidade do debate político

Política é feita de símbolos e resultados. A simbologia de civilidade vista entre Lula e Tarcísio, no enfrentamento à tragédia em São Paulo, pode ser um caminho para a reconstrução do debate público nacional

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA24 de fev. de 234 min de leitura
Uma mulher remove lama de uma casa afetada por enchentes no distrito de Juquehy, em São Sebastião. Foto: Nelson Almeida/AFP
Creomar de Souza, para Headline Ideias24 de fev. de 234 min de leitura

A construção de prognósticos políticos é sempre uma tarefa ingrata. Em primeiro plano, a margem de erro e as armadilhas mentais que cercam o “especialista” colocam aquele que se predispõe a compreender a política em um eterno embate entre aquilo que é a realidade e aquilo que o analista gostaria que ela fosse. De fato, todo o esforço do analista em compreender um processo político envolve também um processo de afastamento ou contenção do seu “eu cidadão” neste esforço.

Ao se observar de maneira efetiva a paisagem política do país, é possível compreender que dentre os vários efeitos nefastos da ciranda de polarização, o mais visível é a criação de mecanismos de estímulo às práticas políticas de confronto. Seja por parte de eleitores comuns que se envolveram em ações violentas durante todo o processo eleitoral, seja por parte daqueles que tomaram a frente nas invasões do dia 08 de janeiro, alimentou-se uma lógica de que políticos de posições distintas devem estar em constante confronto como forma de reafirmarem suas crenças.

Apesar disso, é possível verificar um elemento positivo do mundo político, em meio às tragédias humanitárias vivenciadas no literal paulista. A fala e a troca respeitosa de gentilezas entre o Presidente da República e o Governador do Estado de São Paulo são um marcador que deve ser visualizado com atenção devida em um país que se acostumou, na última década, com a venda da falácia de que política democrática é ofensa, ataque e agressão. Efetivamente, tais elementos de reconciliação e reconstrução do prédio constitucional de 1988 estiveram presentes com maior ou menor intensidade em toda a narrativa de campanha de Lula para o Palácio do Planalto.

Porém, diante dos desafios e agendas críticas que cercam o dia a dia da cidadania, o resultado da eleição mostrou a necessidade de levar tais elementos para além de uma lógica meramente eleitoral. Se, até o dia 07 de janeiro, a retórica de proximidade e repactuação poderia ser interpretada dentro de uma mera lógica de consolidação da militância de esquerda ao redor do Presidente recém-eleito, os eventos do dia 08 alimentaram a necessidade de avançar em um amplo pacto político e institucional em favor da civilidade política.

Um pacto de Moncloa Tupiniquim: o mundo ideal

Em um mundo ideal, o processo resultaria na construção de um Pacto de Moncloa Tupiniquim – em que forças políticas democráticas da direita até a esquerda firmariam um marcador de consenso mínimo para a funcionalidade institucional do país. O problema, em termos analíticos, é que a realidade é um muro instransponível e o atual cenário político nacional hoje dá poucos espaços para a construção de uma lógica de civilidade e respeitabilidade entre atores políticos.

Tem-se como exemplo duas tentativas do Palácio do Planalto em construir consenso em torno de uma agenda comum. As reuniões com governadores de estado, na sequência aos atos de 08 de janeiro e a segunda em 27 de janeiro, mostraram os limites da construção de diálogo federativo. De eleitores atacando governadores nas redes sociais, ao fato de que alguns destes assumiram uma posição beligerante com interesse eleitoral – restando alguns anos para a próxima eleição – o fato é que o clima de beligerância que afeta uma parte do eleitorado segue sendo capaz de criar tumulto e barulho.

Presidente Lula e o governador de São Paulo, falam após visita à São Sebastião, uma das cidades mais castigadas pelas fortes chuvas que atingiram o litoral norte paulista, em 20 de feveireiro. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.
Presidente Lula e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, se cumprimentam após as falas de apresentação do relatório de danos à São Sebastião, uma das cidades mais castigadas pelas fortes chuvas que atingiram o litoral norte paulista, em 20 de fevereiro. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Por este motivo, a forma respeitosa e civilizada com a qual Lula e Tarcísio se manifestaram após a resposta rápida das autoridades locais e federais às chuvas merece ser analisado. Afinal, se a atitude de ambos repercutiu mal entre seus seguidores mais inflexíveis, isso significa dizer que ela é o caminho a ser seguido para a melhoria do ambiente político, da tomada de decisão e da qualidade de vida da maior parte dos cidadãos. 

* Creomar de Souza é historiador e mestre em relações internacionais. É fundador e CEO da Dharma Politics  

 

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