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O governo precisa de uma Frente Ampla em defesa de si mesmo

Com o surgimento de mais uma crise no horizonte e a quase inevitável CPMI para investigar os atos de 8 de janeiro, fica clara a necessidade do governo rever seu modelo decisório

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA21 de abr. de 236 min de leitura
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, cumprimenta Geraldo Alckmin durante o anúncio de investimentos para ampliar e qualificar a assistência em entidades filantrópicas que prestam serviço ao SUS, em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil
Creomar de Souza, para Headline Ideias21 de abr. de 236 min de leitura

Lula foi eleito sob os auspícios de defesa e consolidação de democracia brasileira. E independentemente do fato de que sua incontinência verborrágica tenha criado alguns embaraços para si e seu governo, efetivamente até aqui não há um desafio ao prédio institucional construído a partir de 1988. Dos esforços de demonstração simbólica de união entre as esferas distintas de Poderes eleitos – via diálogo constante com governadores e prefeitos –, passando pela normalização das relações com o Legislativo e o Judiciário, o governo é até aqui bem-sucedido em termos de criar uma ambiência normal no que tange ao cotidiano da política.

Tal normalidade, contudo, traz em si um desafio que é digno de momentos de transição – e sim, Lula é até aqui um governo de transição: o fato de que há uma diferença entre aquilo que se espera e aquilo que é capacidade de entrega do modelo decisório. E ao se colocar de maneira clara as expectativas sobre o governo, é um fato que muitos dos eleitores do atual presidente em ambos os turnos das eleições gerais do ano passado gostariam de uma lógica governativa mais plural e centrista que os afagos constantes feitos à militância de esquerda.

Desejos e expectativas não se processam comumente no mundo real. Por consequência, tanto de uma necessidade quanto do trauma de um passado recente, Lula se acercou de membros do partido e colocou nomes que foram importantes para sua eleição em agendas mais específicas. Em termos claros, Geraldo Alckmin, Simone Tebet e Marina Silva são até aqui subaproveitados, enquanto outros, como Tasso Jereissati, nem parte do governo são. E o realce a este subaproveitando de atores que podem falar para fora da militância é importante, sobretudo quando se observa um ambiente político em que persistem os incentivos políticos e eleitorais para o radicalismo.

Neste quesito, mesmo que se tenha em mente que o crescimento da representação política antidemocrática não é um fenômeno isolado da política nacional, se faz importante ter em mente que ao final do dia a responsabilidade pela defesa da democracia como um reino de direitos é uma missão que não pode ser tomada como uma pauta monopartidária ou individual. E aqui parece existir um erro de premissa no curto espaço de tempo que marca a terceira administração de Lula: ao tornar a tomada de decisão homogênea em termos de concepção de mundo e de interpretação da realidade, o governo perde janelas de oportunidade importantes na normalização do debate público e assume riscos desnecessários para si em uma ambiência política em que polarização persiste.

Um governo frágil em várias camadas

Como resultante, a construção de respostas aos problemas, mesmo quando boas, perdem espaço no emaranhado de confusões e sobrecarga cognitiva que marca a sociedade brasileira em 2023. Se busque como exemplo o esforço da administração atual em reconstruir instâncias decisórias importantes, tais como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial ou a recriação do Bolsa Família. Dois movimentos interessantes e válidos que se perderam na disputa por atenção quando comparados a excessos administrativos ou mesmo em caprichos de decoração que alimentam uma interpretação de desapego à realidade de um país onde milhões sofrem com vulnerabilidade social.

O fato é que este é um governo frágil em várias camadas. Da lógica orçamentária à capacidade de construção de estratégias de diálogo eficazes com a sociedade, há debilidades. Porém, estas não se manifestam apenas no campo comunicacional. Ao contrário, as falhas de comunicação se dão até aqui por falta de qualidade e ausência de heterogeneidade no processo decisório. Tal dilema, contudo, pode ser solucionado caso Lula e o próprio Partido dos Trabalhadores compreendam a necessidade de trazer atores novos para a Sala de Gestão de crise. Estes, alguns aqui citados nominalmente, são essenciais para a superação de uma lógica defensiva em termos de relação com o legislativo, para uma situação em que o governo possa começar a pautar o debate político sob novos termos.

Esta mudança dos rumos do debate se torna sumamente necessária em um contexto em que o primeiro dos ministros do governo a cair foi atingido por grave suspeição de envolvimento nos atos do 8 de janeiro. Esta ação gera a quase inevitabilidade da criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre os atos antidemocráticos do 8 de janeiro, de modo que o governo corre sério risco de que as agendas importantes para si e para o país sejam eclipsadas pelo processo investigatório a ser conduzido por senadores e deputados.

E mesmo que se leve em conta as diferentes posições políticas acerca das invasões do mês de janeiro, o fato é que Comissões Parlamentares de Inquérito são um excelente instrumento de paralisia decisória e desgaste reputacional de chefes do Executivo. E diante de um cenário em que a lógica decisória claudica e a sensação de entrega em termos de políticas públicas não se manifesta em melhoria dos índices de popularidade, se torna fundamental a revisão da lógica decisória até aqui construída. E esta envolve também a adoção de novos elementos de diálogo com a base parlamentar do governo no Legislativo – que mesmo frágil assume posição protagonista frente aos desafios que são resultantes da mais recente crise.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva gesticula durante o anúncio da liberação de recursos para entidades filantrópicas de saúde no Palácio do Planalto, em Brasília. Foto: Evaristo Sá/AFP
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva gesticula durante o anúncio da liberação de recursos para entidades filantrópicas de saúde no Palácio do Planalto, em Brasília. Foto: Evaristo Sá/AFP

Este movimento de ajuste de curso, dependente de maneira clara de números mais robustos no Congresso Nacional, precisa também de uma consistência em termos de lealdade à uma agenda que foi consagrada pelas urnas em 2022: a defesa da democracia conforme construída pela constituição de 1988. E tendo Lula como o último dos constituintes com força política e tração eleitoral suficiente para interromper a marcha da insensatez do radicalismo, a oportunidade não pode ser desperdiçada via simplismo e paroquialismo partidário. Afinal, se o compromisso eleitoral de fato foi pela construção de uma Frente Ampla pela defesa da democracia, chegou o momento em que esta passa a fazer parte de fato do governo em seu círculo decisório mais profundo e importante.

* Creomar de Souza é historiador e mestre em relações internacionais. É fundador e CEO da Dharma Politics

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