Conecte-se

Ideias

#POLÍTICA

O mundo mudou, a rationale de Lula também

O presidente Lula segue seu esforço por reabilitação de sua biografia, ao mesmo tempo que busca arbitrar conflitos e suas próprias ansiedades em um horizonte político bastante distinto daquele em que construiu a maior parte de sua trajetória

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA24 de mar. de 235 min de leitura
Luiz Inácio Lula da Silva participava em ato contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016. Foto: Daniel Marenco/HDLN
Creomar de Souza, para Headline Ideias24 de mar. de 235 min de leitura

O presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva desembarcará na República Popular da China no próximo final de semana. Em uma repetição daquilo que se transformou em uma marca de suas administrações anteriores, levará ao seu lado um séquito de empresários e políticos. Como missão desta turnê estrangeira, está obviamente a possibilidade de estreitar negócios e manter mercados ante os números exíguos da economia nacional e a crescente dependência que o governo tem no atual momento pelo surgimento de boas notícias em âmbito econômico.

Porém, enquanto persistem elementos simbólicos que muito se assemelham ao passado das administrações petistas, reforçando que Lula e o Partido dos Trabalhadores pretendem reerigir com a ideia de reconstrução, há algo diferente no horizonte. E esta diferença está na forma como Presidente lida até aqui com seu principal atributo político, o uso da palavra. O Lula de 2023 é claramente distinto do Lula “paz e amor” de 2003, ou mesmo da figura construída no imaginário da militância durante a última campanha eleitoral, que é a imagem de um Lula que, uma vez investido novamente no cargo de presidente, seria uma figura próxima daquilo que se viu em Nelson Mandela na África do Sul pós-apartheid.

Concretamente, todo olhar lançado sobre políticos – ou mais especificamente sobre homens e mulheres de Estado – é deveras crítico. Afinal, estes se colocam em momento de campanha como figuras superiores, quase divinais, cujas características são realçadas para alcançar o cidadão comum ao mesmo tempo que transmitem para grupos econômicos importantes a imagem de que sabem exatamente o que estão fazendo. E diante do fato da crítica ser proporcional à desilusão, ao lançar o olhar sobre o que governantes fazem ao longo da história, é possível dizer que estes, assim como aqueles que escrevem e leem este texto, estão submetidos a paixões e medos bastante comuns.

Lula em sua "terceira versão"

Ao se investir no exercício de observação de Lula em sua “terceira versão” – compreendendo a primeira como político na presidência por dois mandatos; a segunda como homem enviado à prisão; e a que se refere no atual momento –, é possível dizer que há duas forças importantes que impulsionam seu comportamento. A primeira destas é a percepção clara de que esta é a chance derradeira de reabilitação de sua biografia, com um controle minimamente razoável da forma como será retratado nos livros de história.

A segunda força, por sua vez, envolve o esforço de transformar tal desejo em realidade. Afinal, se por um lado não é algo pouco significativo a consecução de três vitórias eleitorais, sendo a última em condições bastante adversas, é possível dizer também que no terceiro mandato – de forma quase cármica – axiomas repetidos à exaustão pelos petistas em momentos anteriores, tais como, a herança maldita, têm se realizado sobremaneira no estado bastante complexo em que se encontram as contas públicas e o estado da economia.

No trato das questões econômicas e no dia a dia da administração do governo, é possível compreender onde residem os principais diferenciais deste novo Lula. Em primeiro plano, por uma questão geracional, já abordada aqui em outro momento, o presidente dá sinais nítidos de que são poucos os quais ele considera como iguais ao seu redor. Esta compreensão, de maneira nítida, torna o comportamento de Lula – sobretudo quando este se encontra em diálogos em espaços que se sente à vontade – mais verborrágico. E esta verborragia, até aqui, de forma quase que mitológica, tem sido seu tendão de Aquiles.

A cada fala impensada ou incontida do presidente, como vistas recentemente nas críticas ao Senador Sérgio Moro, torna-se claro o fato de que este não está acompanhado de um assessoramento que consiga alertá-lo dos impactos negativos deste comportamento. Ao contrário, ao que parece até o presente momento, é que há um estímulo daqueles que percebem que o melhor caminho para sobrevivência partidária é o encastelamento em posições maniqueístas e na redução do debate público à uma lógica dicotômica rasa.

O senador Sergio Moro, e o ex-presidente Jair Bolsonaro, dão uma entrevista coletiva após um debate nos estúdios da TV Globo no Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2022. Foto: Mauro Pimentel/AFP
O senador Sergio Moro, e o ex-presidente Jair Bolsonaro, dão uma entrevista coletiva após um debate nos estúdios da TV Globo no Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2022. Foto: Mauro Pimentel/AFP

Sob outra perspectiva, ao olhar para os lados e não encontrar pares, Lula parece ser refém de uma escolha tanto quanto óbvia para aqueles em seu lugar, a exposição de um posicionamento emotivo e em alguns momentos desalojado das expectativas daqueles que desejavam normalidade política. Tal desejo, cada vez mais uma promessa irrealizável, não só aqui como alhures, é tragédia da política democrática naquilo que ela tem de mais significativo: a capacidade de busca de soluções para problemas coletivos.

O novo Lula parece padecer, portanto, de uma profunda solidão do ponto de vista decisório. Esta solidão, ao mesmo tempo que impede a compreensão clara da agenda que se propõe, torna o processo de tomada decisão altamente previsível por aquilo que ele não é: linear e objetivo. O desejo, portanto, é que o presidente e aqueles que o cercam compreendam o tamanho da tarefa que se coloca diante de cada um deles. E que esta internalização de um desafio histórico de monta possa permitir a elevação da lógica decisória para além dos meros recursos emotivos e simbólicos até aqui construídos.

Afinal, se o país conseguiu até aqui se proteger do risco institucional representado pelo autoritarismo de extrema-direita, isto não significa dizer que os artífices da ruptura desistiram de sua tarefa de minar as instituições e a lógica de funcionamento da coisa pública. 

*Creomar de Souza é historiador e mestre em relações internacionais. É fundador e CEO da Dharma Politics

#POLÍTICA
BRASIL
LULA
CHINA
MORO