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O óbvio precisa ser dito: estamos à deriva

Em sua genialidade, José Saramago construiu alegorias muito interessantes sobre o seu país em seu tempo. Hoje, nos utilizamos de uma destas alegorias para lançar luz sobre o debate político atual

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA10 de mar. de 236 min de leitura
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o lançamento do novo programa Bolsa Família, em 2 de março de 2023. Foto: Evaristo Sá/AFP
Creomar de Souza, para Headline Ideias10 de mar. de 236 min de leitura

Concretamente, levando em consideração aquilo que se vê e o que se percebe no horizonte político nacional, a constatação é óbvia: o país encontra-se à deriva. Tal qual uma versão agigantada da visão de José Saramago da Nau de Pedra, é possível observar que entre um Poder Executivo que parece envelhecer rapidamente e um Poder Legislativo engolfado em polarização e exibicionismo, o debate público se torna, cada vez mais, um diálogo de surdos. Neste, as bolhas e as regras de conduta sobre aquilo que se deve ou não externalizar, aquilo que se deve ou não publicar nas redes sociais, aquilo que se deve ou não recriminar, são ditadas por um esforço vão de driblar o algoritmo e a ditadura do clique.

Essa ditadura do clique, exercendo o papel de uma gaiola digital, impede que cidadãos comuns, ao estarem presos entre o entorpecimento e a pressão pelo fechamento das contas mensais, consigam enxergar a realidade para além das telas de seus celulares. Como resultante, se constrói mais um elemento de prisão das percepções. Aquilo que deveria ser dito e refletido perde espaço ante à mais recente peripécia circense de ocasião. Em uma sociedade estrangulada pela ditadura do diversionismo, o controle da atenção da audiência transforma o debate público em um reality show de gosto duvidoso.

Feito este diagnóstico preliminar, é importante alterar o nível de análise e partir para uma tentativa de interpretação daquilo que se passa com o Brasil passados quase setenta dias de uma nova chefia do Executivo. Em seu terceiro mandato, alçado à categoria de figura ímpar da história republicana, Lula enfrenta um nível de problemas que, em uma situação normal, causariam pesadelos a qualquer observador mais arguto da política nacional. Em primeiro plano, o presidente precisa lidar com o fato de que sua coalizão partidária inicial foi pouco eficaz em garantir assentos no Congresso Nacional.

O desaparecimento do consenso

De mais a mais, surge ainda um outro problema – este possivelmente derivado de um equívoco de premissa do Chefe do Executivo e de seus conselheiros mais próximos ao não compreenderem que: em vinte anos, o país mudou, os cidadãos mudaram e, sobremaneira, a política mudou. Incontestavelmente, todas essas mudanças se manifestam em uma lógica que talvez escape de percepções fantasiadas ou até mesmo de modelos idealizados pela Ciência Política como campo de estudo e investigação. Ao fim do dia, o fato é que o país não será uma fotocopia daquilo que foi na primeira década do século XXI. Em poucas palavras, isso se dá simplesmente pelo fato de que um instrumento fundamental daquele momento desapareceu do horizonte: o consenso.

Como uma espécie de mantra, repetidas vezes este espaço de ideias tem realçado a importância da construção de consensos para a preservação da ordem e estabilidade democrática. Porém, o fato duro de admissão é que o consenso inexiste, e inexiste sobremodo pelo fato de que o eleitor brasileiro não quer um consenso – em seu íntimo, ele deseja algum tipo de ruptura. Esta ruptura desejada, desenhada e quase realizada durante o governo anterior, permanece no horizonte em cerca de 20% da legislatura atual, cuja agenda claramente é a de desconstruir o prédio democrático conforme posto pela Constituição cidadã de 1988.

Por razões aritméticas, esta porcentagem de entes políticos não se traduz em um cenário para que sobrevenham os meios suficientes para o avanço de suas proposições. Todavia, de maneira óbvia, tais entes possuem os meios e a ousadia retórica para capturar atenções e avançar em direção à conquista de corações e mentes. E diferentemente daqueles que depositam sobre si a responsabilidade de propor soluções estruturais para os problemas coletivos, a agenda da antipolítica é simplista, haja vista que não possui compromisso algum com nada que não seja seus próprios interesses.

Brasil numa encruzilhada

Aqui, então, cabe a pergunta: quais são esses interesses? De forma direta, voto e atenção – combustíveis fundamentais para a sobrevivência de qualquer ator político em um sistema democrático minimamente competitivo. E diante da capacidade desses atores de avançarem sobre a regra do jogo normal, vociferar contra o diálogo civilizado e, sobremaneira, ter o conforto de que a impunidade e a visibilidade serão as recompensas por seus atos, fica clara a encruzilhada em que esse país se coloca.

E diante desta encruzilhada, as respostas do Executivo a este novo momento têm sido as mesmas que foram produzidas vinte anos atrás. A lógica de reconstrução, a ideia de que havia um paraíso terrenal a ser readquirido e a percepção de que há uma capacidade taumatúrgica de curar o país com retórica e celebração negam, ao final do dia, aquilo que a política é neste exato momento: uma guerra campal pela preservação de uma ordem democrática liberal. Não se deve confundir aqui, entretanto, ordem democrática liberal com essa experiência libertária que, de tão inconsequente, se torna, ao longo do tempo, um suporte para irresponsabilidades e agressões travestidas de direito de opinião.

Concretamente, o desafio para 2023 é o de construir políticas e ações que minorem o risco político ao prédio democrático, dando a percepção causal ao cidadão de que questões simples como a queixa de um produto defeituoso são inerentes à uma vida democrática normal. E o ponto fulcral da atual conjuntura é que, à medida que os representantes se fecham em redomas para cuidarem de seus cálculos estratégicos de sobrevivência e benefícios, a cidadania se divorcia destes e acredita que a pirotecnia é mais eficaz para lidar com os dilemas coletivos que o debate político frutífero.

Ao fim e ao cabo, passados os primeiros dois meses da administração presidencial, o susto do 8 de janeiro e a consolidação da ideia de que o ano será muito difícil em termos econômicos e sociais, se consolida a percepção de que todo o capital político e imagético gerado durante a campanha eleitoral de Lula tem sido desperdiçado em um mix de confusão cognitiva e soberba – as quais impedem a construção de agendas claras e o estabelecimento de prioridades que sejam projetadas para além do paroquialismo nos principais espaços de Poder da República. Essas questões consideradas, o risco é que a resultante desta letargia seja a consolidação de uma lógica que nos relegue à uma condição de perpetua estagnação que, tal qual na obra do celebre Saramago, torne este país um pedaço de rocha flutuando à deriva pelo Atlântico.

* Creomar de Souza é historiador e mestre em relações internacionais. É fundador e CEO da Dharma Politics

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