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O sistema político respira. Agora é preciso entregar resultados concretos

Ante uma transição presidencial acentuadamente marcada por tumulto, Lula se prepara para assumir seu terceiro mandato num ambiente permeado por grandes expectativas e humores políticos exaltados

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#Lula30 de dez. de 227 min de leitura
O presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, chega para coletiva de imprensa que anunciou os nomes dos ministros que irão compor seu governo, em Brasília, em 29 de dezembro. Foto: Evaristo Sá/AFP
Creomar de Souza, para Headline Ideias30 de dez. de 227 min de leitura

Lula (PT) é o principal responsável pela ressurgência da conceituação de presidencialismo de coalizão. O termo, cunhado e consagrado pelo cientista político Sérgio Abranches – que semanalmente compartilha suas notáveis ideias aqui na Headline – se manifesta como uma alegoria perfeita do que veio a se constituir como o modus operandi da política brasileira após a assinatura da Constituição Cidadã, em 1988.

Na lógica de presidencialismo de coalização, o chefe do Executivo, após ser brindado com a vitória em um processo eleitoral, precisa se acercar do maior número de partidos e atores políticos possíveis para tentar garantir estabilidade decisória e governabilidade política. Posto isso, se em termos de olhar retrospectivo Dilma Rousseff (PT), Michel Temer (MDB) e Jair Bolsonaro (PL) marcaram os limites desta modelagem, sob Lula, são muitos os indícios que sinalizam para o renascimento desta dinâmica.

Das vitórias obtidas na Suprema Corte contra a deformidade sistêmica chamada “orçamento secreto” à definição final da fotografia ministerial com 37 nomes oficializados, o que se vê até o presente momento é um movimento orquestrado de reconstrução do sistema político e das relações entre os Poderes. A referência conceitual que orienta alguns tomadores de decisão neste processo parece ser claramente aquilo que pode ser considerado como “a era de ouro da Nova República” – período compreendido pelas administrações Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula.

Mudanças no país são uma ameaça

Mais do que um olhar sobre o passado, encontra-se uma espécie de nostalgia cognitiva que constrói uma percepção idílica manifesta na ideia de quando as coisas funcionavam. Obviamente, não há aqui nenhum interesse de negar avanços civilizacionais como o Plano Real ou o Cadastro Único de programas sociais. O ponto, ao contrário, é que ao mesmo tempo que se reconhecem tais avanços, faz-se o alerta da necessidade de compreender aquilo que mudou no país nas duas últimas décadas, e de como estas mudanças representam uma ameaça ao novo governo e ao próprio modelo institucional nacional.

Diferentemente do ocorrido nos governos FHC e Lula, desta feita há uma ameaça real e organizada à existência do jogo democrático. A capacidade de mobilização, organização e propagação da crença de que o sistema deve ser mudado fora da regra do jogo democrático é uma ameaça que, tal qual um cancro, se alastra dentro da sociedade brasileira. Esta se reproduz com velocidade das redes sociais baseadas em internet, se alimentando sobremaneira da incapacidade da máquina pública em todos os níveis em prover entregas de qualidade aos cidadãos comuns.

O produto prático desta movimentação que se manifesta na falta do compromisso do enfermeiro em aplicar uma vacina ou na conivência do policial para com um ato de vandalismo político é o maior desafio que se coloca para o novo governo. Afinal, se o indivíduo não acredita em sua liderança, sua capacidade de engajamento na missão de servir a população fica prejudicada, sob o risco de reduzir-se a mero formalismo. Esta erosão das lógicas de servir – bastante aprofundadas no último período – crescem pela própria natureza de um debate público protagonizado pela lógica de erradicação do outro.

A difícil missão de Lula

Lula, de quem se espera muito, portanto, chegará ao Palácio do Planalto com a difícil missão de trazer normalidade sistêmica, previsibilidade decisória, mas, sobretudo, resultados rápidos em termos de melhoria da qualidade de vida à população. Em primeira instância, este desafio passará pela capacidade que Lula terá de ler a realidade socioeconômica de maneira eficaz, além da necessidade de arbitrar com qualidade as desavenças de uma equipe heterogênea – em que ao menos 5 dos 37 ministros nomeados não fazem segredo de suas ambições presidenciais.

De Geraldo Alckmin (PSB) à Simone Tebet (MDB), passando por Flávio Dino (PSB), Fernando Haddad (PT) e Marina Silva (REDE), é possível dizer que este tende a ser um governo com dois grandes objetivos: a reabilitação da biografia de Lula e a normalização da vida política nacional. As duas agendas, convergentes em teoria mas altamente complexas por si mesmas, são derivadas da capacidade de que o presidente e seus ministros terão de atacar os principais problemas do país e construir respostas que tirem o combustível de radicais.

Lula ao lado do futuro ministro da Economia, Fernando Haddad, e a futura ministra do Planejamento, Simone Tebet. Luiz Inácio Lula da Silva nomeou nesta quinta-feira a ambientalista Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, e a líder indígena Sonia Guajajara à frente da inédita pasta dos Povos Originários, concluindo seu gabinete três dias antes de iniciar seu terceiro mandato presidencial no Brasil. Foto: Evaristo Sá/AFP
Lula ao lado do futuro ministro da Economia, Fernando Haddad, e a futura ministra do Planejamento, Simone Tebet. Luiz Inácio Lula da Silva nomeou nesta quinta-feira a ambientalista Marina Silva como ministra do Meio Ambiente, e a líder indígena Sonia Guajajara à frente da inédita pasta dos Povos Originários, concluindo seu gabinete três dias antes de iniciar seu terceiro mandato presidencial no Brasil. Foto: Evaristo Sá/AFP

Haddad e Dino: peças-chave do primeiro momento

Neste aspecto, a maior responsabilidade de primeiro momento recai sobre Haddad e Dino. O primeiro, por ser o futuro responsável pela condução da economia brasileira em um ambiente global tendencialmente caracterizado por incerteza e retração. O segundo, por sua vez, por ter sido escolhido para lidar com uma agenda da justiça e segurança pública que, a partir da negligenciada centro-esquerda, foi ocupada por uma interpretação com flertes extremistas e autoritários. Se de um ponto de vista simbólico esta interpretação é facilmente encontrada em elementos retóricos na internet, do ponto de vista prático, seus efeitos foram visualizados na erosão funcional da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Federal.

Os exemplos citados são ilustrativos, portanto, da necessidade de compreender que não haverá entrega de qualidade sem um olhar bastante cuidadoso e acurado sobre os servidores públicos. Mais do que alimentar a lógica secessionista que normalmente caracteriza momentos de transição, será necessário buscar e recorrer àqueles que primam seu comportamento e ética de trabalho pelo estrito e zeloso cumprimento das suas funções públicas. Tendo como referência o olhar para o passado, vale ter em mente que o desafio da atual conjuntura está além das lógicas corporativas e de listas tríplices.

Ante uma transição presidencial acentuadamente marcada por tumulto, Lula se prepara para assumir seu terceiro mandato num ambiente permeado por grandes expectativas e humores políticos exaltados.

Girando em torno de uma composição ministerial que ambiciona garantir ao futuro governo oportunidades para a reabilitação da biografia de Lula e uma repaginação do sistema político, tais expectativas serão altamente dependentes da capacidade que esse governo terá de entregar resultados robustos em um espaço exíguo de tempo.

Ao fim do dia, se trata de um embate pelos corações e mentes de uma sociedade que, de maneira muito custosa, optou por dar uma nova chance a um grupo político que até muito pouco atrás era visto como a raiz de todos os problemas nacionais. Assim sendo, respeitando-se os interesses de reabilitação e a deferência para com um passado, compreende-se que o desafio presente, que se estenderá para o futuro, demandará de cada um dos atores políticos que assumirão o poder no próximo dia 1º de janeiro a habilidade, o compromisso e, sobremaneira, a capacidade de encarar seus desafios como se o próprio futuro da democracia nacional dependesse disso. Ao fim e ao cabo, talvez ele dependa.

* Nascido na periferia do Planalto Central, Creomar de Souza é historiador de formação e fundador da Dharma Politics.

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