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Tome as rédeas, presidente Lula

A premissa de que Lula seria um avatar afastado do dia a dia do governo já se mostra irreal. Ou presidente entra em campo, ou seu terceiro mandato será de imobilismo

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA8 de mai. de 234 min de leitura
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebe um presente do cacique Raoni, líder indígena da tribo Kayapo, durante uma visita ao Acampamento Indígena Terra Livre em Brasília, em 28 de abril. Foto: Carl de Souza/AFP
Creomar de Souza, para Headline Ideias8 de mai. de 234 min de leitura

Durante a campanha eleitoral e até mesmo na transição, muito se falou sobre o papel que Lula (PT) exerceria diretamente na presidência. Alguns apostavam que ele seria um facilitador do processo de amadurecimento de novas lideranças dentro e fora do Partido dos Trabalhadores, mantenho protagonismo mais direto nas agendas internacionais.

O fato é que, adentrando o quinto mês de administração, a lógica de terceirização da tomada de decisão em nível nacional – para que ele consiga focar em sua diplomacia presidencial – tem sido pouco eficaz. Das derrotas recentes do governo no Congresso à inação na consolidação de agendas que são importantes, o retrato até aqui demonstra a falta de um elemento que empodere ministros e faça com que as crenças e ideias do presidente entrem em um campo prático.

O nível de inação é um marcador importante da relação do governo com o Legislativo. Construída conceitualmente por Lula e seus conselheiros mais próximos como uma visão nostálgica daquilo que marcou o ápice do presidencialismo de coalizão, essa relação ainda não se manifestou de maneira efetiva por uma razão muito simples: o país é outro. E neste Brasil de 2023, as fórmulas passadas não são eficazes. O toma lá, dá cá do passado foi transformado, assumindo novos contornos, impulsionado pelos vícios do orçamento secreto sob o governo Bolsonaro e pelo apetite que se tornou insaciável por emendar parlamentares, com custo baixo para eventuais infidelidades na hora de votações importantes.

Neste sentido, a lógica decisória construída por Lula e a própria qualidade do aconselhamento ao que o presidente está submetido parecem frágeis. De maneira clara, vê-se que não há interesse de menosprezar pessoas ou perfis, porém é importante fazer um alerta: o processo de reconstrução a que se propõe este governo não pode se resumir apenas discursos, cerimônias e lacrimejo. É preciso ser eficaz na operação e na articulação política, seja mudando a natureza do jogo – o que seria irrealista sem grandes reformas políticas –, seja ao menos arregimentando apoios e cobrando fidelidade, aumentando os custos de defecções. Tudo isso levando em conta projetos pessoais de líderes e presidentes das duas casas do Congresso, que são agora o calcanhar de Aquiles da articulação política do governo.

O dilema

O dilema político de 2023 é claro. O Brasil, assim como outras democracias de baixa qualidade ao redor do mundo, está sob ataque continuado de agrupamentos políticos de matiz reacionária e autoritária. E estes grupos, como já afirmado por autores consagrados nacional e internacionalmente, têm sido capazes não só de construir falas, discursos, mas sobretudo de mobilizar espíritos incautos oprimidos por uma realidade cada vez mais desafiadora. No Congresso, os setores mais radicais exploram a desarticulação do governo para ajudar a impor derrotas, embora eles não sejam os principais responsáveis pelo desfecho desfavorável à situação em importantes votações. Ao contrário, a desarticulação explica essas derrotas, que acabam ampliando os espaços adicionais para as tendências mais extremas, que surfam nesse ambiente.

Fernando Haddad, durante uma reunião entre o presidente argentino, Alberto Fernandez, e Lula no Palácio da Alvorada, em Brasília, em 2 de maio
Fernando Haddad, durante uma reunião entre o presidente argentino, Alberto Fernandez, e Lula no Palácio da Alvorada, em Brasília, em 2 de maio. Foto: Sergio Lima/AFP

E se mesmo em momentos de abundância econômica a lógica de desinformação tende a alimentar protestos e turbulência política, o que se pode dizer de uma situação como a do Brasil de hoje é que este é um país marcado por estagnação econômica e falta de consenso acerca dos caminhos a serem seguidos para a retomada do desenvolvimento. Por mais que Fernando Haddad (PT), Alexandre Padilha (PT) ou quaisquer outros nomes da Esplanada dos Ministérios estejam recobertos de boas intenções, o fato é que ao final do dia só há um ator político com capacidade de avalizar acordos e pôr em curso uma agenda robusta, e este é o presidente da República.

Nestes termos, Lula precisa compreender que somente ele pode empoderar o ministro da Fazenda e outros ministros, somente ele pode garantir que acordos estabelecidos com o Congresso sejam postos em curso e que somente a sua intervenção direta pode romper a barreira de imobilismo que se coloca em várias áreas importantes deste governo. Enfim, está claro que sem o protagonismo do próprio presidente, a articulação política torna-se evidentemente ineficaz, garantindo revezes ao governo e fornecendo farto alimento para aqueles que exploram a desarticulação para jogar na base do “quanto pior, melhor”.

* Creomar de Souza é historiador e mestre em relações internacionais. É fundador e CEO da Dharma Politics 

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