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Uma crise por vez: encarando a realidade ao modo estóico

Ao nos aproximarmos do final do mês de janeiro de 2023, se torna essencial a compreensão de que o principal produto deste início de ciclo político é a multiplicidade de problemas. Eles merecem ser enfrentados com objetividade e frieza

Creomar de Souza, para Headline Ideias
#POLÍTICA27 de jan. de 235 min de leitura
Manifestação em frente à sede do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, em 25 de janeiro. Com o tema "Democracia, Direitos das Pessoas e do Planeta, Outro Mundo é Possível", o ato percorreu as principais ruas do centro da cidade. Foto: Silvio Ávila/AFP
Creomar de Souza, para Headline Ideias27 de jan. de 235 min de leitura

Correndo o risco de flanar por uma obviedade, é possível dizer que este não é um país para amadores. Tal adágio, consagrado em rodas de conversa de diversos níveis de importância, serve para balizar uma percepção de que perigoso é navegar no terreno movediço que envolve a interface entre o público e o privado no Brasil. O ano de 2023 não completou ainda seu primeiro mês e já é possível afirmar com considerável acurácia que o prognóstico é preocupante.

Do ambiente macroeconômico, passando por desalinhos regulatórios e desdobramentos de ordem política tradicional, o fato é que este mês de janeiro ficará registrado como um momento de alta tensão e gravidade na trajetória da democracia brasileira.

De um lado, em um primeiro momento, a eleição de Lula simbolizou uma retomada de reflexão esperançosa por grupos políticos que se sentiram alijados do processo decisório em políticas públicas nos últimos anos. De outro, o 8 de janeiro, a crise com as Forças Armadas e a tragédia dos Yanomami serviram de farol para a internalização de um fenômeno que marca este momento: o número considerável de crises simultâneas a serem administradas.

Os riscos de reações precipitadas

Tal situação tem como efeito prático o crescimento da ansiedade e do temor acerca de escolhas políticas e seus impactos no presente e no futuro do país. Esta ansiedade, quando somada à dinâmica hiper veloz das redes de comunicação baseadas em internet e seu apetite voraz por cliques e segundos de atenção, gera como produto claro uma série de interpretações concorrentes sobre a realidade, cujo único traço comum é a precipitação.

Essa precipitação se manifesta no mundo político, como não poderia deixar de ser, com falas dramáticas, considerações peculiares e proposições decisórias que acabam sendo frequentemente interpretadas dentro de uma lógica de amor e ódio – que é a mola propulsora do looping que impede a sociedade brasileira de avançar em qualquer direção. Isto é importante de ser levado em consideração, sobretudo pelo fato de que na atual lógica cognitiva e decisória que surge no horizonte de entes públicos e privados, a mera percepção de progresso e avanço se perdem ante o risco de perda de conquistas e espaços construídos no tempo.

Trazendo essa reflexão para o campo prático, é possível dizer que para o empresariado que se habituou ao longo dos últimos anos com as promessas infindáveis de Paulo Guedes acerca de uma Canaã desburocratizada, os primeiros movimentos de Fernando Haddad e seus pares são pouco animadores. Seja pela dificuldade do novo ministro da Fazenda de encontrar um tom narrativo que estabeleça uma ponte de diálogo mínima com setores importantes do PIB, seja pela constatação entoada em verso e prosa pelo Presidente da República de que ao fim do dia quem manda é ele, o fato é que a pressão sobre aquilo que se imagina é maior do que aquilo que se tem.

A lição do estoicismo para o momento atual

E aqui há uma lição importante vinda do estoicismo, tão em voga na cabeceira de leitura de muitos decisores: é preciso encarar a realidade com naturalidade. Afinal, a realidade é o que é e, neste momento, Lula é presidente e Haddad é ministro da Fazenda. A aceitação destes dados irrefutáveis em termos políticos é fundamental para que sejam colocados os dois pés no chão e para que, de maneira direta, se construa uma lógica de contenção de riscos e ameaças eventuais derivadas deste contexto político.

Como decorrência deste processo de aceitação da realidade, em uma lógica bastante pragmática e afastada de dinâmicas emocionais infantis, caberia, de outro lado, o entendimento por parte de decisores políticos em todas as esferas de que este é um país com enorme dificuldade de estabelecer um lastro de confiança entre representantes e representados. E que esta dificuldade está, sobremaneira, baseada no fato de que um número considerável de atores públicos não consegue construir lógicas de regulação que atendam ao binômio liberdade de empreendimento e geração de valor para a comunidade.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice-presidente e ministro da Indústria e Comércio Geraldo Alckmin e o ministro das Relações Institucionais Alexandre Padilha participam de reunião com governadores de estado no Palácio do Planalto, em Brasília. Foto: Sérgio Lima/AFP
Reunião no Palácio do Planalto entre Lula, seus principais ministros e governadores após os ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília. Foto: Sérgio Lima/AFP

Em determinado sentido, este conflito, pedra basilar da estrutura sociopolítica que nos cerca, demanda, por óbvio, a necessidade de enfrentamento de uma crise por vez. E se para a chefia do Executivo Federal a primeira crise é a de sobrevivência em um ambiente marcado por hostilidades, para agentes econômicos a contraparte deste processo é compreender que a eleição acabou e que há negócios a serem tocados, empregos a serem garantidos e riscos políticos a serem mitigados.

Para além, portanto, de uma dinâmica marcada por frenesi e ansiedade, se faz necessária a construção de uma lógica de diálogo. E esta, por sua vez, poderá ser consolidada a partir de dois movimentos que serão consolidados no início de fevereiro: as eleições para as presidências das Casas Legislativas e o avanço de discussões sobre temáticas importantes para o futuro do país, tais como a repactuação tributária e a necessidade ou não de regulamentar as operações de grandes empresas de tecnologia.

Se o 8 de janeiro foi uma amostra grátis daquilo que mais assusta à maioria da cidadania nacional, o 1º de fevereiro pode ser o marco zero de uma dinâmica mais focada na resolução de problemas e crises que afetam a capacidade produtiva e a lógica política. O risco, aqui, se manifesta na incapacidade dos principais decisores – públicos e privados – de compreenderem o nível de responsabilidade que se coloca sobre cada um deles em um momento ímpar da história política do Brasil.  

  • Creomar de Souza é historiador e mestre em relações internacionais. É fundador e CEO da Dharma Politics.

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